Dolto, Françoise, A criança do espelho Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
Um diálogo entre Dolto e Nasio
tando que aqueles múltiplos pedaços de
A referência às crianças cegas é particularmente interessante
porque levanta o problema da constituição da imagem
inconsciente do corpo a despeito da ausência da prova
do espelho.
Dolto: Pode parecer curioso, mas eu não hesitaria em afirmar que a imagem do corpo nos cegos permanece inconsciente por muito mais tempo que naqueles que vêem. Os terapeutas que tratam distúrbios de caráter em crianças vítimas de cegueira congênita ouvem com freqüência o relato de histórias edipianas pontuadas por expressões referidas à visão. Os cegos sempre dizem: “Estou vendo.” E me aconteceu de lhes perguntar: “Como pode ver se, justamente, você é cego?”. E
eles me responderem: “Digo estou vendo porque ouço todo mundo à minha volta falar dessa maneira.” E eu lhes replicar:“Todo mundo diz: ‘Estou vendo’, mas para signifi car que está compreendendo.” Essas crianças cegas são dotadas de uma sensibilidade notável. Quando, por exemplo, elas modelam uma escultura, as mãos da bonequinha representada ocupam um lugar preponderante. Ocorre-lhes traçar desenhos não sobre o papel, mas gravados na massa de modelar achatada.E elas obtêm assim, com a mesma mestria que as crianças que vêem, verdadeiras imagens do corpo projetadas em seus grafi smos. Ora, em suas esculturas o tamanho das mãos é muito maior que nas modelagens das crianças que vêem,e a razão disso é muito clara: é com as mãos que as cegas vêem, é nas mãos que elas têm olhos. Vocês compreendem por que os desenhos são mais gravuras que traçados gráficos.É muito interessante analisar uma pessoa privada de um parâmetro sensorial, pois, enquanto sujeito de linguagem, ela teve de reorganizar a simbolização dos outros parâmetros.Nesse caso, o psicanalista se dá conta de que polariza sua escuta sobre o parâmetro sensorial ausente, ao passo que esse a criança do espelho mesmo parâmetro passa desapercebido nas circunstâncias corriqueiras da análise.
Nasio: Minha vontade era traduzir sua observação dizendo: se o cego tem os olhos na ponta dos dedos, o psicanalista desse cego deveria ter os olhos no vazio de sua escuta. Mas voltemos,se não se importa, à experiência do espelho e retomemos as considerações a propósito da castração. Por que dizer que essa experiência é uma castração?
Dolto: Porque é decididamente uma prova. Penso em uma criança que de repente vê surgir sua imagem refl etida em um espelho em que ela não reparara até então — as crianças são sempre extremamente sensíveis ao impacto súbito de alguma coisa. Nesse momento, ela se aproxima alegremente do espelho e exclama toda contente: “Um bebê!” Depois brinca,e acaba batendo a testa e não entendendo nada. Se a criança estiver sozinha no recinto, sem a companhia de alguém para lhe explicar que se trata apenas de uma imagem, ela fi ca afl ita. É então que se dá a prova. Para que essa prova tenha um efeito simboligênico, é indispensável que o adulto presente nomeie o que está acontecendo. É verdade que muitas mães,nesse momento, cometem o erro de dizer à criança, apontando o espelho: “Está vendo, isso é você”, quando seria muito simples e correto dizer: “Está vendo, isso é a sua imagem no espelho, assim como a que você vê ao lado é a minha imagem no espelho.” Sem essa palavra essencial à simbolização, a criança certamente efetuará uma experiência escópica — constatando,por exemplo, que sua imagem desaparece quando ela
não está mais na frente do espelho, e que reaparece quando ela volta para lá —, mas a experiência não deixará de ser,na ausência de resposta e de comunicação, uma experiência escópica dolorosa. É muito penoso para a criança se os a criança do espelho outros não estiverem no mesmo recinto que ela, na frente
do espelho. O outro deve estar ali não apenas para falar com ela, mas para que a criança observe no espelho a imagem do adulto diferente da sua e descubra assim que é uma criança.Pois uma criança não sabe que é uma criança e que tem o tamanho e aparência de uma criança. Para saber, ela precisa olhar no espelho e constatar a diferença entre sua imagem e a do adulto. Quando, ao contrário, a mesma criança está com uma criança menor, ela sofre por perceber que sua identidade de criança não é mais estável. As crianças não gostam de estar em espelho com uma criança menor nem em comunhão de identidade. Esta, aliás, é uma das razões pelas quais a criança que começa a crescer derruba as menores. Acontece,
por exemplo, de ela não se contentar mais em arrancar o brinquedo de uma menor, precisa também empurrá-la e fazê-la cair. Convém lhe explicar que, se ela derrubou seu colega de brincadeiras, foi para se certifi car de que não se tornou idêntica a ele; de outra forma, perderia sua identidade.Após a explicação do adulto, a criança está deslumbrada e não precisa mais empurrar outras crianças. Você vê o quanto essas trocas entre as crianças são determinadas pelo espelho,que contamina toda a realidade.
Nasio: Você qualifi ca a experiência do espelho como ferida,como furo simbólico, e assim a defi ne: “Essa ferida irremediável da experiência do espelho pode ser chamada de furo simbólico, de onde decorre, para nós todos, a inadaptação da imagem do corpo e do esquema corporal” (p.151). Ora,essa ferida determinada pela imagem escópica suscitaria na criança uma espécie de alerta permanente a fi m de se certifi
car de que a imagem está bem ajustada ao olhar do seu ser na relação com os outros; e, em suma, a fi m de defender sua identidade .
A criança do espelho (caso)
Dolto: Exatamente. A melhor ilustração é
o caso da mesma garotinha de que falávamos,
que perdera sua “boca de mão” e
não conseguia deglutir bem. Essa criança
saudável e maravilhosa tornara-se esquizofrênica
aos dois anos e meio. Não tive
oportunidade de vê-la por muito tempo,
pois ela era fi lha de uma família americana
de passagem por Paris por apenas dois
meses. Enquanto seus pais visitavam a cidade,
a criança fi cava no quarto do hotel
protegida por uma pessoa desconhecida
que falava inglês, mas não o inglês americano.
De modo que a menininha não
tinha como interagir. Ora, as paredes do
recinto estavam cobertas de espelhos e
a maioria dos móveis era espelhada. No
espaço desse quarto dos espelhos e sem
companhia vigilante, ela se perdeu e despedaçou
em fragmentos de corpos visíveis
por toda parte. Além disso, a presença de
um bebezinho que exigia os cuidados da
babá o tempo todo deixava a criança ainda
mais desamparada. De volta aos Estados
Unidos, ela foi acompanhada em tratamento.
Mais tarde, recebi uma carta da
mãe dela com fotos soberbas da mesma
criança tiradas dois meses antes da crise
que a levou à consulta. Era terrível ver
como a experiência do espelho dissociara
e encarquilhara seu ser. E pensar que no
início os pais estavam contentes, acredi-
tando que aqueles múltiplos pedaços de
espelho a divertiriam... não perceberam
que sua fi lha naufragava na loucura.
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